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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Miss Jane & Zé Higino - Sombras ou realidade

Na véspera do feriado do dia da criança, de passagem pelo D.A da Filosofia, entre uma conversa e outra, fui convidado pelo colega Miguel a escrever um artigo para o jornal do D.A. Por experiência, sei da importância da colaboração para poder se tocar um grêmio. Assunto? Pertinente. Tamanho do texto? Cinco mil caracteres. Para quando? Ontem. Ok. Conta comigo.
E agora? Escrever sobre o que? Assuntos não faltam, mas a competência para tratar deles no meio dos nossos futuros e presentes intelectuais? E o risco de me expor ao ridículo? Bem, me expor não é o problema. Sou doutorado no assunto. Enquanto pensava numa saída, me dirigi à sala de Filosofia Social e Política suando as bicas. E o tema? O tema cérebro, o tema! Qual seria o tema mais quente cérebrooo? (Nãããooo, cerveja nãããooo). Quem sabe o assunto mais pertinente seja a discussão sobre o desarmamento, com uma análise dos prós e contras, enfocando o lado religioso da importância do sim (ou seria do não?), do risco histórico dos genocídios para dizer não (ou seria dizer sim?), dos interesses comerciais... do sim ou do não? Ou aprofundar, numa análise sobre a ética do possível ou da ética universal, a questão do mensalão e cia? Ou ....
“Léo”, me interrompe a professora com a aula já em andamento, “continue a leitura do texto do Celso Lafer, por favor”. Quem sabe me aventuro a entrar neste texto interessante, que enfoca a influência de Marx, Kierkegaard e Nitzsche na construção do pensamento político de Hanna Arendt. Rompedores de alguns sacros pensamentos de Hegel, Kant e outros, influenciaram Hanna, que nos influencia e nos transforma em seus herdeiros. Tentamos, sempre que possível, penetrar até o fundo da alma da filosofia de outrem, para compreendê-la e ser seu fiel guardião e ferrenho condutor. Soube até gurizada que, se nos comportarmos bem, poderemos vir a ser não só seus herdeiros, com o direito a andar travestido de filósofo predileto, mas, com sorte, termos o seu espírito renascido em nosso corpo. Seríamos uma versão filosófica apresentada na novela América da rede Globo. Já pensou: poderíamos ser um Descarte, um Kant, um Santo Agostinho ou talvez até o próprio Sócrates... socorro! Sicuta não!
Retornando ao texto do Celso, “Da dignidade da Política”, do livro “Hannah Arendt: pensamento, persuasão e poder” - São Paulo: Paz e Terra, 2003 - na página 52 está escrito: “...o fenômeno totalitário revelou que não existem limites às deformações da natureza humana e que a organização burocrática de massas, baseada no terror e na ideologia, criou novas formas de governo e dominação, cuja perversidade nem sequer tem grandeza, conforme nos aponta Hannah Arendt ao examinar a banalidade do mal, etc., etc., etc....” Pois é. Não sabia que perversidade tinha grandeza. Ah, não é bem isso. Ela quis dizer, diremos, ahn..., bem..., quando eu entender conto para vocês. A mim parece que tem a ver com o momento histórico do holocausto da 2ª Guerra. Ele seria o marco da barbárie. Antes, tudo que se cometia de cruel e de perverso, era cometido, digamos, com mais grandeza. Durante, a barbárie foi mais... bárbara. A partir dele, os defensores e portadores da verdadeira ética e moral dominaram a crueldade e a deixaram menos...cruel. Democracia, direitos humanos, sociedades protetoras de tudo e de todos, distribuição de renda e não sei o que mais, devem conspirar juntos para a construção de uma vida mais feliz. O poder...bem, o poder..., o poder continua com os poderosos. (Estou achando que é melhor não me aventurar a escrever sobre este assunto).
Na hora do recreio, entre as opções de ficar na sala, tomar um café ou tirar um “xerox”, a necessidade e o bom senso me fizeram escolher o último. Tomo o rumo dos corredores da universidade e vou dignamente ao encontro da fila do “xerox”, não antes de receber a informação de que um colega de Filosofia Moderna havia se suicidado. Choque, incompreensão, porquês, desolação e lembranças. Do colega não recordo a fisionomia. Parece-me, me diz o colega portador da notícia, que se tratava de um menino de 19 anos, calado, tímido, e que não lembrava de ter ouvido a sua voz em aula. Aí me recordo de um amigão, alegre, feliz, extrovertido, um irmão da vida, que, não se sabe porque, tomou há alguns anos a mesma atitude extrema perante a vida. Lembro também que o professor Sérgio, na disciplina de Problemas Filosóficos, nos lançou um desafio para desenvolvermos um texto com base no título “Por que não devo me suicidar?” A minha resposta começava por outra pergunta: “Por que deveria?” Penso no quanto nos teriam a dizer aqueles que partiram e nos deixaram aqui entristecidos e perplexos.
Começo o retorno à sala e ainda não me decidi sobre o tema. Talvez sobre alfabetização ecológica, enfocando as ecologias da mente, da natureza e da subjetividade? Afinal, o apocalipse começou, nos diz a revista Superinteressante. Mas, antes de me decidir, resolvo prestar atenção ao que está acontecendo ao meu redor. Levanto mais a cabeça, abro mais os olhos, espicho mais os ouvidos, fico mais atento ao mundo dos acontecimentos reais. De repente, pimba. Sinto-me como o homem da fábula da caverna, voltado para a sua entrada e vejo a luz. Começo a ver figuras e não mais suas sombras. Vejo as reais preocupaçõs das pessoas e não mais aquelas que imagino. É o encontro com a realidade do cotidiano, que habita os corações e as almas do nosso povo. Um encontro com essa massa consciente de cidadãos indignados com os desmandos do mundo, que vão à procura de um monitor de TV para lá, finalmente, resolverem a dúvida que os atormenta: será que é hoje que Miss Jane se encontrará com Zé Higino? Originalmente publicado em 12/10/2005

Um comentário:

jbandero disse...

".....do livro “Hannah Arendt: pensamento, persuasão e poder” - São Paulo: Paz e Terra, 2003 - na página 52 está escrito: “...o fenômeno totalitário revelou que não existem limites às deformações da natureza humana e que a organização burocrática de massas, baseada no terror e na ideologia, criou novas formas de governo e dominação, cuja perversidade nem sequer tem grandeza,....." E o que falar das Republiquetas ao nosso redor com seus maquiavélicos Ditadores travestidos de democratas????