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domingo, 2 de março de 2008

O espelho da madrasta

“A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular, é indispensável ser medíocre” Oscar Wilde.

Foi a revelação do espelho que desencadeou a transformação da madrasta na bruxa da fábula da “Branca de Neve e os sete anões”. Não a simples revelação de que existia alguém mais bela, mas a forma como ela encarava esta possibilidade, esta "concorrência". A felicidade e satisfação de viver no mundo por ela idealizado só teriam sentido sendo ela a mais bela, a melhor, o centro de tudo e de todos. Talvez, se o espelho não existisse para lhe revelar uma outra realidade, a madrasta, satisfeita de viver na ilusão dos seus predicados, poderia ter mantido o seu "discurso" e jamais ter se transformado na bruxa da estória, mantendo o lado "feio e perverso" da sua personalidade adormecido, escondido, escamoteado. A incapacidade de lidar com a realidade desta revelação levaram-na a proceder da forma como procedeu, ao invés de servir de estímulo para corrigir eventuais falhas, melhorar virtudes e enriquecer as suas relações com a vida.
Revelações percebidas nas nossas relações diárias ou de dados retirados de tabelas, pesquisas ou outras formas de informação, servem para percebermos diferentes situações com mais clareza e realidade. Mesmo que limitadas, elas podem nos revelar aspectos negativos ou positivos da nossa personalidade ou da nossa capacidade e competência, diferentes do discurso ou daquilo que imaginamos ser real e verdadeiro em nossas vidas.
"Espelho, espelho meu, existe alguém melhor do que eu?" Ao ser questionado, ele talvez nos responda, de forma fria, dura e incisiva, não aquilo que gostaríamos de ouvir, mas a verdade nua e crua. A resposta do “espelho” revelador não é necessariamente a causadora da metamorfose que nos transformará em “bruxos malvados”. Ela em si não é nada, não produz comportamentos nem destrói ou constrói personalidades, mas, os desejos subjetivos escondidos dentro de cada um de nós, sim. São eles os responsáveis pelas reações e transformações: estão lá com ou sem o nosso "espelho".
Cabe a cada um construir e decidir o desfecho da sua própria história: não consultar o "espelho", para manter o discurso "intacto" e a ilusão de ser o que imaginamos que somos, pela satisfação e status que isto nos dá, é uma delas. Consultar, e optar em envenenar a "maçã" para destruir os nossos eventuais concorrentes, dentro do melhor estilo "bruxa malvada", é outra. Ou, quem sabe, decidimos aceitar a realidade das nossas deficiências (e virtudes, por que não), corrigindo o que tem que ser corrigido e melhorando o que já está bom, construindo desta forma um ambiente mais ético, honesto, justo, saudável e feliz entre nossos amigos, colegas, familiares e sociedade em geral.
Cabe a cada um decidir o caminho a seguir e “pagar a conta” pela decisão tomada. Ou alguém duvida que a conseqüência desta decisão, de alguma forma e num dia qualquer, virá bater à nossa porta para nos “premiar”?

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