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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O que, por que e para que Filosofia?

Na nossa cultura, na nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se ela transmitir alguma sensação de importância, de carregar consigo alguma finalidade prática, visível, digerível, palpável e de utilidade imediata. O senso comum não só não consegue ver uma utilidade para o estudo da filosofia, como ainda, na sua ignora convicção e para o júbilo das mentes e sistemas ditatoriais, e também de alguns educadores e educandários, crê que ela para nada serve.
Na obra Convite para a Filosofia, CHAUÍ (2000) desenvolve no capítulo Para que Filosofia, argumentos onde procura justificar e explicar, tal como outros tantos pensadores e filósofos, o que é e para que afinal serve esta tal de filosofia. A filosofia, escreve, existe para permanentemente questionar o conhecimento de tudo e de todos sempre (inclusive as teorias dos cientistas e a sua aplicação). Platão já definia a filosofia como o saber verdadeiro que deve ser usado em benefício do ser humano. Descartes considerava a filosofia como o estudo da sabedoria, do conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso na vida, a conservação da saúde e a invenção das técnicas e da artes. A filosofia só faz sentido de existir se o saber e o conhecimento alcançado for aplicado para o bem do ser humano. Não qualquer saber, não qualquer conhecimento superficial de aceitação imediata das coisas dadas. Mas uma compreensão profunda de todas as suas possibilidades. Para tanto, a autora indica um caminho que poderá nos ajudar a clarear e a aprofundar os nossos saberes e, a partir deles, tomar posições fundamentadas em conhecimentos sólidos e não "achismos".
1. Qual a atitude filosófica a tomar nas "evidências" e vivências do nosso cotidiano? Passamos, no nosso dia o dia, afirmando, negando, questionado, desejando, avaliando, aceitando ou recusando pessoas, coisas ou situações (de forma objetiva ou subjetiva). A atitude filosófica correta a tomar é, antes de decidir a atitude ou posição a tomar, questionar tais situações tentando respondê-las e entendê-las através de exaustivas perguntas diretas ou inesperadas. Não devemos jamais aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana sem investigá-las e compreendê-las. Tais questões começam a se cristalizar e a se concretizar a partir do momento que nos distanciamos das coisas do nosso cotidiano e de nós mesmos, indagando-nos o que são as crenças e os sentimentos que alimentam, silenciosamente, nossa existência, desejando conhecer o que são e por que, afinal, cremos, sentimos e agimos da maneira como cremos, sentimos e agimos.
2. O pensamento e a atitude crítica: “Sei que nada sei”, afirmava Sócrates, o maior dos filósofos. Para Platão, a filosofia começava com a admiração e para Aristóteles com o espanto. A filosofia exige do sujeito uma atitude crítica: é necessário dizer não ao senso comum, aos pré-conceitos, aos pré-juízos, aos fatos e idéias da experiência cotidiana, ao que “todo mundo diz e pensa”, ao estabelecido. É necessário questionar sobre o que são as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. As questões fundamentais da atitude filosófica começam perguntando: O que? Por que? Como? Para que? Através destas perguntas, devemos olhar para o mundo em que vivemos, para as questões que enfrentamos, como se nada dela soubéssemos. É como se tivéssemos nascido neste instante, tomando ciência da situação e quiséssemos saber tudo sobre ela. O que é, por que é e como é? O que somos, por que somos e como somos? Esta atitude independe do conteúdo e algumas de suas características são sempre as mesmas. Quando dirigimos indagações ao mundo que nos rodeia e as relações que mantemos com ele, queremos saber:
- qual a realidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa, não importa qual; - qual é a estrutura e quais são as relações que constituem uma coisa, uma idéia, um valor. - qual é a origem ou qual a causa que as constituem.
Pouco a pouco se descobre que as questões se referem à nossa capacidade de conhecer, à nossa capacidade de pensar. As perguntas acabam se dirigindo ao próprio pensamento: o que é pensar, como é pensar, por que há o pensar ? A filosofia torna-se o pensamento interrogando-se a si mesmo. Esta volta do pensamento sobre si mesmo chama-se de reflexão.
3. A reflexão filosófica : A reflexão filosófica indaga, visando saber se a nossa crença do cotidiano é ou não é um saber verdadeiro, um conhecimento sustentado que tem como finalidade humana conhecer e agir para a construção do bem. A reflexão é o movimento pelo qual o pensamento, a palavra, a ação e a realização, que mantemos com a realidade circundante, volta-se para si mesmo, interrogando a si mesmo. É o movimento de volta sobre si mesmo. O movimento de retorno a si mesmo. Para indagar como são possíveis o próprio pensamento, a palavra, a ação e a realização e saber o que é pensar, falar e agir. Para conhecer-se a si mesmo.
3.1. Quais os motivos, as razões e as causas: - Por que e para que pensamos o que pensamos? - Por que e para que dizemos o que dizemos? - Por que e para que fazemos o que fazemos?
3.2. Qual é o conteúdo e o sentido: - O que queremos pensar quando pensamos? - O que queremos dizer quando dizemos? - O que queremos fazer quando fazemos?
3.3. Qual é a intenção e a finalidade: - Para que pensarmos o que pensamos? - Para que dizermos o que dizemos? - Para que fazermos o que fazemos?
4. Filosofia: um pensamento sistemático: O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual, realizado através de indagações filosóficas, de modo sistemático. Essas indagações fundamentais não se realizam ao acaso, segundo preferências e opiniões individuais, não sendo um “eu acho que” ou um “eu gosto de”, mas tem que poder afirmar “eu penso que”.
A filosofia tem que trabalhar com enunciados precisos e rigorosos, racionalmente fundamentados, buscando encadeamentos lógicos entre os enunciados, operando conceitos ou idéias obtidas por procedimentos de demonstração e prova, fazendo com que a nossa experiência do cotidiano, nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crítica de si mesmo.
Quando afirmamos: “esta é a minha filosofia” ou “esta é a filosofia do fulano ou da fulana” podemos estar enganados ou não:
· Estamos enganados, se esta forma de filosofia ficar no plano do “eu acho”, pensando que basta-nos ter um conjunto de idéias mais ou menos coerentes sobre todas as coisas e pessoas, bem como um conjunto de princípios mais ou menos coerentes para julgá-las.
· Não estamos enganados se, mesmo que confusamente, percebermos, pressentirmos na Filosofia a existência de uma característica entre as idéias, os princípios de coerência, de relações entre as idéias e a lógica. Não estamos enganados quando a filosofia puder formar um todo daquilo que aparece de modo fragmentado em nossa experiência cotidiana.
5. Em busca de uma definição de filosofia.: A Filosofia possui diversas definições, que aparentemente se contradizem e que iremos averiguar:
5.1. Visão de mundo de um povo, civilização ou cultura:· A Filosofia corresponde, de modo vago e geral, ao conjunto de idéias, valores e práticas pelos quais uma sociedade apreende e compreende o mundo e a si mesmo, definindo para si o tempo e o espaço, o sagrado e o profano, o bom e o mau, etc., definida de modo tão amplo e genérico que não permite, por exemplo, distinguir Filosofia e religião, Filosofia e arte, Filosofia e ciência. Esta definição não é aceita, por que ela não se acerca da especificidade do trabalho filosófico.
5.2. Sabedoria da Vida: É definida pela ação de algumas pessoas que pensam sobre a vida moral, dedicando-se à contemplação do mundo para aprender com ele a controlar e dirigir suas vidas de modo ético e sábio. Seria uma contemplação do mundo e dos homens, numa filosofia de budismo, para nos conduzir a uma vida justa, sábia e feliz, ensinando-nos o domínio sobre nós mesmos, sobre nosso impulsos e paixões. Esta definição também não pode aceitar, mesmo que ela represente o que se espera da Filosofia (a sabedoria interior) mas não o que é e o que faz a filosofia.
5.3. Esforço racional para conceber o Universo como uma totalidade ordenada e dotada de sentido: Ela distingue a Filosofia da Religião. A Filosofia procura compreender o Universo através da razão, discutindo até o fim o sentido e o fundamento da realidade, não admitindo indemonstrabilidade e irracionalidade. A Religião procura compreender pela revelação divina indemonstrável, que pode ser considerada irracional pelo pensamento, sendo aceita pela confiança, pela fé. Esta definição também não pode ser aceita, pela impossibilidade de hoje se poder explicar e definir pela Filosofia o Universo, através da elaboração de um sistema universal ou um sistema do mundo para compreende-lo. Existem duas limitações: 1º, porque a realidade também é explicada pelo estudo das ciências e pela expressão nas artes, já não sendo possível uma única disciplina que pudesse abranger sozinha a totalidade dos conhecimentos; 2º, porque a própria Filosofia não admite ser possível que um pensamento único ofereça uma única explicação para o todo da realidade.
5.4. Fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas: A filosofia não é ciência, não é religião, não é arte, não é sociologia nem psicologia, não é política, não é história ; é uma reflexão crítica:
· Dos procedimentos e conceitos científicos; · Das origens e formas das crenças religiosas; · Da interpretação crítica dos conteúdos, das formas, das significações das obras de arte e do trabalho artístico; - Da interpretação e avaliação crítica dos conceitos e métodos da sociologia e psicologia; · Da interpretação, compreensão e reflexão sobre a origem, a natureza e as formas do poder (pela política); · Da interpretação dos acontecimentos (históricos) enquanto inseridos no tempo e compreensão do que seja o próprio tempo.
A Filosofia ocupa-se com as condições e os princípios do conhecimento que pretenda ser racional e verdadeiro. Quando o senso comum, as ciências e as artes já ou ainda não sabem o que pensar e dizer, no instante em que a realidade natural (do mundo das coisas) e a histórica (do mundo dos homens) se tornam estranhas, espantosas, incompreensíveis e enigmáticas, aí entra a Filosofia para investigar e interpretar as idéias ou significações gerais. Estas atividades filosóficas captam a Filosofia orientada pela sua elaboração de significações gerais sobre a realidade e os seres humanos, podendo ser assim descritas:
· A Filosofia como análise: das condições da ciência, da religião, da arte, da moral; · A Filosofia como reflexão: a volta da consciência para si mesma para conhecer-se enquanto capacidade para o conhecimento, o sentimento e a ação; · A Filosofia como crítica: das causas e formas de ilusões e dos preconceitos individuais e coletivos, das teorias e práticas científicas, políticas e artísticas;
6. Inútil? Útil?
6.1. A Filosofia será inteiramente inútil se : - Considerar que útil é aquilo que dá prestígio, poder, fama e riqueza; · Julgar o útil pelos resultados visíveis das coisas e ações, identificando utilidade e a famosa expressão “levar vantagem em tudo”;
6.2. A Filosofia será o mais útil de todos os saberes se: · Considerar que útil é abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum; · Considerar que útil é não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos; · Considerar que útil é buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história; · Considerar que útil é conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política; · Considerar que útil é dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para sermos conscientes de nós mesmos e de nossas ações, numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos.

Bibliografia: CHAUÍ, Marilena. Para que Filosofia. In: Convite à Filosofia. 12ª ed. São Paulo: Ed. Ática, 2000, p.9-18.

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