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domingo, 22 de julho de 2007

2. Trajetória pessoal nas relações com a escola.

Trabalho para avaliação do PA Culturas, Diferenças e Educação
Professora: Fernanda Wanderer
Autor: Léo Jorge Philippsen
Unisinos 2005/01

1. Trajetória pessoal:

Toda a base da minha educação aconteceu na minha cidade natal, chamada Santo Cristo. Localizada no noroeste do estado do RS, além da região das missões, é um município de aproximadamente 25000 habitantes, com uma economia voltada à produção agrícola de minifúndios, possuindo ainda algumas pequenas indústrias e ser a sede do 2º maior grupo de varejo do estado e um dos maiores do Brasil, as lojas Quero-Quero (com 100% do controle acionário na mão de pessoas do próprio município). Possuiu sempre um índice muito baixo de analfabetos. Eu pessoalmente nunca conheci um analfabeto no município. Todos, inclusive os poucos moradores descendentes de índios, eram alfabetizados. Todos, sem exceção, tinham acesso aos mesmos colégios freqüentados pelo resto dos moradores da cidade. Não sei como isto acontecia, pois o colégio era particular, no caso dos Irmãos Lassalistas e da freiras do Imaculado Coração de Maria e não era gratuito. Creio que os pais e mestres, através de promoções, construíam um fundo que servia para pagar as mensalidades daqueles que não podiam pagar. Aliás, a comunidade é que fazia a manutenção dos colégios, igrejas e tudo o que era de interesse da comunidade. A única religião que existia no município era a católica, e quase 100% dos habitantes eram descendentes de alemães. Nós, os mais jovens, aprendemos desde cedo a falar o português e, na maioria, entendíamos bem o alemão. Meus pais e os demais adultos, falavam a maior parte do tempo em alemão e meus avós, somente o alemão. A razão dos mais jovens estarem aos poucos abandonando o hábito de falar o alemão, tinha como razão principal a sua proibição (também o italiano) imposta na década de 40, motivada pela participação da Alemanha na 2ª guerra mundial. Claro, também pelo fato de que as aulas, os meios de comunicação e as demais relações, principalmente as comerciais, exigiam o conhecimento do português. Pela proximidade com a Argentina e pelos contatos promovidos através de jogos de futebol, por programas de rádio e, principalmente, em razão do contrabando que ocorria entre os dois países, “arranhávamos” também o espanhol. No futebol, sempre havia dois ou três atletas argentinos jogando no time da cidade, o Botafogo Futebol Clube (nome inspirado no time da estrela solitária carioca dos jogadores Nilton Santos, Didi e Garrincha) que tinha no seu fardamento também a famosa estrela solitária, mas que se diferenciava não só na qualidade dos seus jogadores mas também nas suas cores, que eram, ao invés de preta e branca como a do time original, vermelho e verde em homenagem às cores portuguesas. A música correntina e mexicana era bem aceita. “Cielito Lindo”, “Cavalito Bianco”, “Paloma Bianca”, etc., eram músicas conhecidas e cantadas por todos. Miguel Aceves Mejia, cantor mexicano, era um dos ídolos da região. Os cantores brasileiros das décadas de 50 e 60 eram bem apreciados, como os da música gauchesca. A músicas de bandinhas, destacando-se Futuristas, Montanari e bandas locais tinham e tem o seu espaço garantido, junto com a música nativa, argentina, popular brasileira e estrangeira. Sem contar com seus corais e grupos de pequenos cantores, que cantam e encantam quando se apresentam em festivais e celebrações religiosas. Muitos jovens saíram da casa dos seus pais para estudarem em seminários e conventos. Muitos se tornaram religiosos, outros saíram e são hoje reitores de universidades, secretários de estado, deputados, ou simples cidadões. Eu freqüentei o Seminário Apostólico Sagrada Família de Santo Ângelo, do início de 1966 até meados de 1967, dos 12 aos 13 anos e meio, período em que boa parte da construção da minha personalidade aconteceu: lá foi aprofundado ainda mais o gosto pela leitura, pela prática do esporte, pela música clássica, apesar de gostar de um leque muito variado de música, pelo teatro, pela produção do bem estar coletivo. Já anteriormente e depois de sair, o colégio São Judas Tadeu e o Ginásio Santo Cristo, foram base e complementos desta educação. A participação dos meus pais e dos pais dos demais estudantes, era de grande importância, pois eles eram o início e o fim do processo educativo. As orientações que me davam, eram as trabalhadas no colégio pelos professores, e o que os professores ensinavam, eram apoiadas e acompanhadas por eles em casa e no dia a dia. Nem tudo era uma maravilha, seja pela ótica dos meus pais, dos professores ou minha. Muitas regras eram quebradas conscientemente outras não. Algumas eram relegadas, pois eram regras, que hoje percebo, apenas existiam com o objetivo e preocupação de preservar a minha integridade física. Quando acontecia de quebrá-la, como era o caso de tomar banho escondido no poção do arroio Manjolo e nada ocorria, o alívio parece que amenizava o castigo. Mesmo assim, algumas “lambadas” com vara de marmelo foram aplicadas. Com o passar do tempo, recebia mais liberdade por decidir por mim. A interferência mais longa dos meus pais sobre as minhas decisões foi na escolha de uma namorada. Eu insistia em namorar uma menina que era uma parente de longe, e que eles, com medo de que, se casássemos, tivéssemos filhos defeituosos, foram contra até o fim. A minha mudança para estudar em Santa Maria, mesmo estando namorando outra menina, foi o alívio que lhes faltava.

O resumo das lembranças do período do meu nascimento em 1953, até a saída para Santa Maria em fevereiro de 1972, inicia na festa, alarido que foi feito quando dei meus primeiros passos, saltando depois para aproximadamente os meus 2 anos de idade até os 2 anos e oito meses, data aproximada do nascimento da minha irmã. O que eu gravei da época, foi o descontentamento de não poder mais dormir entre os meus pais, que me colocavam no berço sempre pela madrugada. Pior quando tive que dormir em outro quarto, depois do nascimento da minha irmã, que meus pais me explicaram e eu, pelo que lembro, aceitei. Depois salta para a época do Jardim de Infância, quando tinha de 4 a 5 anos de idade, único período onde os meninos e as meninas da minha época podiam estudar na mesma sala e estar próximos. Depois, este contato mais de perto, só no fim do ginasial. As aulas e a recreação eram dadas por uma Irmã religiosa. Ela tanto ensinava trabalhos manuais, como contava estórias (Branca de Neve - Os 3 Porquinhos - O Lobo Mau, etc.) e organizava brincadeiras de roda, do ovo podre, da corrida do saco, do papai Noel, etc. Tivemos um grande susto quando ocorreu a sua “morte” (desmaio) e uma enorme alegria na sua “ressurreição”. Todos os períodos foram ótimos. O primário foi a época da descoberta da leitura, das contas, de aprender a desenhar, a ter acesso a novas brincadeiras, a assumir responsabilidades, como a de fazer parte da diretoria dos coroinhas e dos congregados do Santíssimo Menino Jesus, do qual fui secretário e presidente. Aprendíamos a dirigir reuniões, fazer atas, discutir programas e organizar programas de lazer e administrar as nossas finanças. Isto antes dos 10 anos de idade. O nosso dia a dia era totalmente preenchido com afazeres e lazeres escolares, escolares paralelos e domésticos, nesta ordem.

O período ginasial foi maravilhoso. O primeiro ano passou batido. Foi mais uma preparação para entrar no seminário. O período do seminário foi excelente e foi resumido acima. Se pudesse voltar atrás e viver paralelamente duas vidas, gostaria de ter uma que continuasse no seminário e outra que vivesse o período maravilhoso que vivi dos 13 aos 15 anos da minha vida. Foi o período da minha primeira namorada e do namoro escondido, do meu primeiro beijo, das reuniões dançantes, dos torneios esportivos, do grupo de pequenos cantores, da preparação para o sete de setembro, das quermesses, dos piqueniques, das excursões...

De lá para cá, aconteceram muitos momentos de alegrias e tristezas, acertos e erros, descobertas e frustrações. O mundo de verdade foi traiçoeiro. Ele não se importou com a minha boa vontade, com a bondade e humanismo com que sempre tratei a tudo e a todos com quem convivi (com certeza não fui nenhum anjo, que cometi erros, mas procurei tratar a todos com o mesmo respeito que gostaria de ser tratado). Ele não se importou se fui tolerante com os desejos, costumes e manias dos outros. Ele não se importou se fui um empresário preocupado e atuante na solução dos problemas dos meus parceiros. Ele queria que me preocupasse só com o lucro. Ele não me perdoou por eu ter seguido e insistido num caminho que não era o meu, se é que temos algum caminho que se possa querer “meu”. Quando digo meu, quero dizer o caminho da minha “vocação”. Ou quem sabe ele se importou, e foi uma forma de me indicar o caminho? Bem, o que aconteceu, foi que durante boa parte da minha vida agi como um bom dublê nas atividades profissionais e nas minhas relações. Há algum tempo vinha me decidindo em dar uma guinada radical na minha vida, mudando totalmente a minha maneira de viver, a minha rotina, em razão da histórica dificuldade que encontrava nos locais que trabalhei. Em razão das atitudes muito “boazinhas”, classificadas pelos meus superiores, amigos e familiares, que usava ao tratar os assuntos relacionados à minha profissão ou negócios, mesmo indo relativamente bem nas empresas que trabalhei (desde cedo, aos 21 anos, assumi cargos de chefia bem remunerados), trabalhando por muitos anos nas mesmas (5 e 7 anos em duas delas), mas sendo sempre contestado, pressionado para mudar a maneira de tratar os colegas hierarquicamente subordinados e, depois de sair da última delas, já com fama de “bonzinho”, não consegui mais me empregar em empregos tradicionais. Precisei entrar para o mercado informal. Depois de permanecer por 6 anos nele, decidi, há 8 anos atrás, abrir a minha própria empresa, que durou 6 anos, até o início de 2003. Aí, pude comprovar, que apesar de trabalhar bem, as minhas atitudes de tolerância e compreensão me levaram à falência. Afinal, meus patrões, amigos e familiares estavam certo. Encontrava-me numa encruzilhada. Ou mudava meus valores, princípios e atitudes, ou mudava o foco dos meus objetivos. Bem , no fundo do poço, decidi recomeçar mudando o foco dos meus objetivos. Por onde? Resolvi lutar, ir a busca daquilo que eu realmente sempre desejei e que já havia iniciado no ano de 2000: estudar filosofia. Em 2002, por falta de grana, fui obrigado a interromper o curso. Resolvi parar de seguir o caminho que sempre imaginei trazer mais felicidade e prazer para mim e meus familiares. Prazeres esses ligados a valores produzidos pela mídia e que definitivamente não são meus. Se vou conseguir satisfazer e alcançar os objetivos traçados? Não sei e, na verdade, isto já não é o fundamental. Claro que será fantástico se acontecer. Mas, no final, se não der certo, ao menos procurei o meu caminho por onde me sinto mais realizado, mais importante, mais feliz e terei me divertido fazendo aquilo que gosto.

2. Comparativo com a palestra da Professora Paula Calefi.

Bem, confesso que não consegui escutar bem o que a professora falou. Creio que a qualidade de som da fita saiu prejudicada. De qualquer forma, vou fazer o comparativo com base numa das suas declarações, que creio, embasarem o seu ponto de vista. Refiro-me ao declarar as maneiras diferentes que nós, brancos, e os índios, enxergamos uma floresta. Nós a enxergamos de forma verticalizada, ou seja, só enxergamos as formas das árvores. Os índios as enxergam como o seu habitat e seu meio de sobrevivência. Mesmo não concordando que isso seja uma regra, ou que da mesma forma o inverso acontece, ou ainda, que acontece em qualquer coisa em que os interesses sejam diversos, vou encarar esta declaração como um exemplo de que existem várias formas de se ver alguma coisa. Independente de cor, raça, sexo, religião ou ainda qualquer coisa que ocorra, o que acredito seja necessário para quem quiser progredir, se aperfeiçoar, crescer, se integrar integrando e integrando para integrar, é respeitar todas as formas diferentes de se ver alguma coisa, procurando compreendê-la, avaliá-la quanto a sua atuação ética e seu estado estético, para inteligentemente aceitá-la ou refugá-la. Jamais posso considerar levianamente que os meus valores são irretocáveis. Se os considero bons, dentro do pensar certo de Freire (1996), no seu livro Pedagogia da Autonomia, devo preservá-los e dar espaço para que outros saberes se integrem a eles. Na minha trajetória pessoal, as culturas diferentes nunca foram refugadas quando agradavam e nunca foram impostas. Creio que um erro que se comete, é quando, ao invés de haver apenas a conscientização da importância do respeito e direito de espaço que as outras culturas e formas de pensar tem, querer obrigar alguém a gostar delas. Não acredito no sucesso desta forma de se integrar culturas diferentes ou de se criar uma nova cultura.

3. Histórias de imigrantes, alguns dos seus ensinamentos escolares e comparativo com a palestra da Professora Paula Calefi e texto da Professora Marisa Vorraber Costa.

Hillebrand (1915), resolve escrever a história dos seus antepassados, com o objetivo de deixar uma referência histórica para os seus descendentes. Nela, entre outros, relata o que talvez tenha sido a principal razão da imigração da família de seus pais e vizinhos, de um vilarejo chamado Dittersbach, em Friedland, na Boêmia, região na época pertencente ao Império Austro-Húngaro e hoje da região tcheca. Na sua narrativa, conta primeiramente e com saudades, os períodos de plantação e colheita que ocorriam no verão europeu, o prazer de participar ainda menino delas, a importância que o armazenamento dos produtos representavam para a sobrevivência de todos durante o período de inverno, as atividades artesanais que praticavam neste período, quando produziam cadeiras, roupas e outros utensílios necessários para o uso do dia a dia e necessários para o próximo verão, a solidariedade que tinham com outras famílias, que por um motivo ou outro não tinham alimentos em quantidade suficiente para sobreviverem no inverno ou ainda que ficavam sem moradia, e a relação com seu avô, demais familiares, amigos e vizinhos. Num segundo momento, relembra histórias do avô sobre o desaparecimento de parentes e parentes de conhecidos, ocorrido em torno de 1796 e início de 1800, e durante todo o período das guerras napoleônicas. Quando estes confrontos começaram a acontecer, os problemas começaram a aparecer, pois suas colheitas eram destruídas ou roubadas, e não havia tempo hábil para se plantar e colher novamente, causando principalmente problemas de falta de alimentos e moradia terrivelmente sentidos durante o inverno. Por mais doloroso que fosse deixar a sua pátria, o seu modo de viver para trás, seus familiares, preocupados com a sobrevivência da família e com a situação insustentável em que viviam, aceitaram imigrar para fora da região, no caso, para o Brasil. Saíram da Europa e aportaram em Nova Petrópolis em 1879. Terra comprada, instalaram-se e tocaram a vida. Sua base de educação? Professores europeus, nem sempre preparados, procuravam dar continuidade aos conteúdos escolares também importados, com adaptações em razão das diferenças climáticas, de língua e de costumes. Se uniam na fé, e mantinham relações de amizade e contato através das igrejas, das sociedades e das escolas. Sua vida social era desenvolvida nestes locais, e atividades culturais herdadas de seus lugares de origem, como torneios de tiro ao alvo, jogo de bolão, canto através de corais, música, teatro e outros que eram praticados. A falta de recursos, principalmente ligados à saúde, unia-os ainda mais, produzindo uma forte cumplicidade e solidariedade entre eles. Respeito e harmonia eram princípios que procuravam preservar. Preocupados com o futuro e orientados pela igreja, organizaram-se em todos os segmentos, inclusive fundando na Linha Imperial, uma cooperativo de crédito, a Caixa Rural União Popular de Nova Petrópolis (Reifeisbanck), tendo como seu mentor o Pe. Teodor Amstadt e o seu primeiro secretário Franz (Francisco) Hillebrand. Hoje a cooperativa está transformado no Banco Sicredi. Esses europeus, pouco ou quase nada tiveram de disputar as suas terras com os índios gaúchos. Não sei se, pela área já ter sido “limpa” anteriormente, ou se a região era pouco habitada por eles. A convivência que houve, na maioria do tempo foi pacífica, cada grupo vivendo a sua própria vida. O modo de vida levado pelos índios, não era compreendido pelos europeus, e o contrário também devia ser verdadeiro. Para os germânicos, a forma que o índio vivia, dependendo da caça e da pesca, não criando raízes, era um sinal de preguiça, de indolência, de irresponsabilidade, de pessoas que não estavas preocupados com o futuro, com os “invernos”, com os “napoleões”, com a falta de comida. Procuravam manter-se afastado deste povo “preguiçoso”. Por que pensavam assim? Por que assim agiam os irresponsáveis, preguiçosos, aproveitadores, boêmios, beberrões da sua própria raça. Essa era a única referência que conheciam. De outro lado, tinham terra à vontade, produtiva e nem sombra de preocupação com problemas de meio ambiente. Schäffer (1931), no seu livro adaptado para que descendentes de alemães no Brasil aprendessem o português, apresenta diversos textos do cotidiano dos colonos alemães, aproximando-os desta forma ao conteúdo do texto, e introduzindo o aluno no conhecimento de vocábulos, verbos e da gramática portuguesa em geral. Escreve sobre a família, seus componentes, seus móveis e utensílios, sobre a relação dos alunos na escola, na venda (casa comercial), do seu potreiro e do vizinho, das cidade, da horta, do sapateiro, do ferreiro, das refeições, do tempo, etc., e, para comparar com a entrevista da professora Calefi (2005), escolhi o texto intitulado “Fazemos uma roça nova”, encontrado na página 57, que transcrevo o seu original:

O pae marca uma parte do nosso matto para preparar uma roça nova. De manhã bem cedo já vou com o peão lá [nos desenhos do livro em outros textos parece ser um negro], e com a foice cortamos os arbustos (as moitas), os cipós e as arvores pequenas. No dia seguinte o pae e o peão começam a derrubar as arvores grandes com o machado. Em quatro, cinco dias toda esta parte do matto está derrubada, e o pae escolhe as arvores que têm madeira boa. Algumas semanas depois tudo está secco. Então deita-se fogo nos arbustos seccos. A chama atira-se sobre as arvores [poético ele, não é?], os arbustos e cipós e queima-os. Grandes nuvens de fumaça sobem ao ar, escurecendo o céu. Das arvores pequenas, dos arbustos e dos cipós só resta cinza. Depois de um bôa chuva tomamos a enchada e vamos para a roça nova plantar feijão.

Isso não modificava neles o amor pela natureza, marcadas por atitudes de preservação de árvores e locais na região, que podem ser testemunhadas pelas espécies vivas preservadas até hoje. Adoravam o canto dos pássaros, as águas cristalinas, a mata refrescante. Adoravam caçar e não desperdiçavam a caça. No meu ponto de vista, a forma de usar os recursos da mata e da terra, usadas pelos colonos e pelos índios, por razões históricas e culturais, eram diferentes sim. Porém, não concordo com Caleffi (2005), quando ela considera que o índio a enxerga como seu habitat e meio de sobrevivência, e o homem branco não. Para mim, ambos, o índio e o colono viam a terra como seu habitat e meio de sobrevivência. Onde o colono de hoje, administra e sobrevive da terra, a sua forma de agir e pensar, na regra, é o de encarar a terra como o seu habitat e meio de sobrevivência. Quem não age assim, é o homem urbano, seja branco, negro, índio, amarelo, que utiliza a terra somente para fins comerciais. Fico muito preocupado, quando vejo o que foi feito neste país, quando, em razão da necessidade de mão de obra barata para a indústria pesada e artesanal, se produziu o milagre brasileiro da década de 70, que quebrou com os pequenos e vocacionados colonos, para abrirem mão de suas terras em troca de empregos “eldoradioanos” que causaram os estragos sociais que todos conhecemos, para deixarem suas terras caírem nas mãos das grandes, irresponsáveis e maquiavélicas corporações. Hoje, por todos os indícios, está se preparando outra forma de se dominar e concentrar ainda mais terras nas mãos desses safados, fazendo-se de conta que existe uma preocupação que as terras sejam devolvidas aos seus legítimos donos, os índios, em razão dos maus tratos impostos pelos atuais colonos. Primeiro, que este negócio de dono da terra é muito relativo. Se esta bandeira deve ser levantada, então todos temos o direito de retomar as terras ou negócios dos nossos antepassados. Possivelmente algumas corporações deveriam devolver algumas empresas ou alguns bancos, redes de lojas deveriam ser desmanchadas, o Texas devolvido ao México, o México devolvendo suas terras não sei para quem, assim por diante, tudo voltando às suas origens, pois afinal , por serem os primeiros, não são eles os seus legítimos “donos”? Para mim, o que existe, são outros interesses por trás de todo este movimento, assunto que encheria mais uma boa centena de folhas. Esta de querer transformar o colono europeu em usurpador e invasor de terra seria hilário se não fosse profundamente sério e revoltante o circo que está se armando. Espero, que o meio docente não esteja sendo usado para que estes interesses sejam atingidos pela subjetividade que existe na formação de opiniões, em exemplos aparentemente justos mas que não resistem a uma análise ética universal, ampla e sem preconceitos, defendida por Freire (1996). Por isto, quando Costa (1998) fala de contestar certas concepções culturais hegemônicas, estiver se referindo a modismos, concordo em gênero e número com esta afirmação. Modismo é “cultura marqueteira”, que dura o tempo da sua promoção. Se ela quer nos alertar par não vivermos a cultura dos outros e trabalharmos o conhecimento do nosso saber a partir das nossas culturas, tudo certo. Se, dentro da realidade do nosso país, estado, município, ela vê que as culturas que estão marginalizadas devem a “marteladas” serem integradas à cultura da região, já tenho as minhas dúvidas. Preservar como história, tudo bem. Integrar sem existir legitimidade, isto é, ela, como tantas outras, pelos séculos afora, modificaram-se ou sumiram, naturalmente, dentro de um processo natural, explicado pela própria biologia. Se ela, que está se extinguindo, tem legitimidade, o que dizer da legitimidade das que naturalmente estão contempladas. A cultura se é boa, se tem legitimidade, ela naturalmente se insere. O que eu posso ter nem admitir como comportamento e prática, é não permitir o seu crescimento, o seu desenvolvimento e sua integração natural. No texto de Boal (2001), volto a tocar no assunto.

4. Comparativo com o texto de Augusto Boal.

Para Boal (2001): “Cultura é o fazer, o como fazer, o para que e para quem se faz”. Antes ainda: “Todos produzimos cultura: gente de uma mesma região, etnia ou religião”. Nós produzimos cultura para vivermos bem, sermos felizes. A vida nos ensina o que é mais gostoso, mais bonito, mais alegre e como seremos mais felizes. Assim, aprendi na minha trajetória de vida, que estando aberto para viver novas experiências, deixando o espírito livre para gostar de alguma coisa sem ter a interferência do “precisar gostar”, ou do “não gostar por não ser igual às coisas que eu gosto”, não aceitando posições sem ter conhecimento de fato do objeto discutido, sem critérios de escolha pré-estabelecidos, serei uma pessoa que poderá ver o mundo com mais clareza e alegria. Se isto for estendido a um grupo de pessoas, a uma cidade, a um estado ou país, e se for povoado ainda por tipos de origem cultural diferentes, aí que a inserção de todas as formas de cultura, de pensar tornam-se mais difíceis. O tempo as aproximará, modificará ou as destruirá. Cabem a nós professores criarmos espaços para mantermos todas vivas, pois a manutenção delas já é uma forma de se manter viva a história de um grupo. Inseri-las, já não depende só da vontade e esforço de preservá-las, é também a importância, influência, “carisma” que elas terão sobre o grupo de pessoas de suas relações.

5. Comparativo com o texto de Rosa Maria Bueno Fischer.

A complexa relação que existe entre a educação escolar e os meios de comunicação, são o tema que preocupa Fischer (1998), quando analisa as influências de ambas na nossa educação. Para ela, é necessário debater entre os educadores questionamentos baseados em práticas diárias que não podem ser vistas “sem que se considere a educação imersa no grande espaço da cultura e...no grande espaço dos meio de comunicação, da cultura,...de modo de ser, de existir e de formar pessoas”. Na minha trajetória pessoal, os principais meios de comunicação disponíveis eram a da prática das relações diretas do dia a dia, da leitura de jornais e revistas e escutava-se um pouco de rádio. Atualmente percebo como os programas de rádio, de televisão e da imprensa escrita, induzem profundamente a opinião e o comportamento das pessoas. O objetivo básico é o do consumo. Indiscutivelmente ela influencia o espectador muito mais do que qualquer educador consegue. “Necessidades” de consumo são produzidas, padrões de comportamento são ditados, imagens são fabricadas ou destruídas. As pessoas desavisadas e mal informadas, na vontade de poder ter uma opinião e na impossibilidade de tê-la, adotam aquela como sendo sua, independente da veracidade das informações que a sustentam.
Acho imperdoável que a classe dos professores, quando com justiça lutam por melhores condições de trabalho, só o façam visando aumento salarial e não pressionam questões fundamentais para que se desenvolva uma educação de qualidade: o nível e tipos de programas apresentados pelos meios de comunicação, de programas curriculares amarrados e da prática de poucos programas curriculares complementares, que visem a ocupação do aluno em programas de integração social durante e depois do seu período escolar.

Referências Bibliográficas:
CALEFI, Paula. Educação Indígena. Comunicado oral. Mesa redonda: Cultura, diferença e educação. São Leopoldo: Unisinos, 2005.
BOAL, Augusto. Fala-se em cultura: o que é ? Revista caros amigos, ano IV, nº 46, janeiro 2001, p.42
COSTA, Marisa Vorraber. Política Cultural na escola. In: Novo Hamburgo: Jornal NH na escola, 09.05.1998.
FISCHER, Rosa Maria Bueno Fischer. Uma agenda sobre debate sobre mídia e educação. NH na escola, Jornal NH. Novo Hamburgo, 27 Junho 1998.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. 18 ed. São Paulo: Editora Paz e Terra S/A, 2001.
SCHÄFFER, Rud. Lese=und Uebungsbuch, zur Erlernung der portugiesischen Sprache für die deutsch=brasilischen Siedlungsschulen. Porto Alegre: Typographia do Centro, 1931.
HILLEBRAND, Franz. Chronik der Familie Hillebrand. São Lourenço de Nova Petrópolis: Escritos Pessoais, 1915.

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